Al Mati - Alguma Merda
LABEL: Left Ear Records**Inclui encarte frente e verso com texto de apresentação e fotos** Al Mati era o pseudônimo do excêntrico artista Alberto Mesquita, nascido em Portugal e radicado na Holanda. O nome se traduz como “Alberto Amigo”, com “Al” como abreviação de Alberto e “Mati” significando “amigo” em surinamês. A história de Alberto soa como a de um personagem mítico de um romance europeu à la Kerouac, mas, em vez de colocá-la no papel, ele despejou essas aventuras e personagens no seu disco. A música e a arte em estilo de história em quadrinhos, desenhada por seu amigo Bruno Scoriels, funcionam como uma coisa só, com o próprio Alberto se tornando ao mesmo tempo a história e o personagem dentro dela. Criado sob o regime de Salazar em Lisboa, onde todos os homens eram convocados para a África, ele se recusou, por ser pacifista. Isso o colocou em conflito com o pai, nascido em Angola e um advogado influente ligado à ditadura. Incapaz de aceitar a posição do filho, a ruptura obrigou Alberto a fugir de Portugal como desertor, deixando tudo para trás. Ele buscou uma nova vida em Paris, onde conheceu Bruno Scoriels. Os dois tocavam nas ruas para sobreviver e, jovens e sem dinheiro, partiram em aventuras pela Europa.
Numa viagem a Barcelona, atravessaram os Pireneus a pé por um túnel ferroviário de cinco quilômetros, sem saber se sairiam vivos. O trem mais tarde apareceu na capa de Some Shit, uma referência àquela travessia perigosa e às reviravoltas estranhas de sua vida. Dali ele se mudou para a Bélgica, onde conheceu Jolanda, sua futura esposa, que também aparece no álbum. Eles viveram na Holanda e depois voltaram para a Bélgica, onde se casaram, antes de retornar a Portugal sob falsos pretextos. O regime prometeu imunidade aos desertores, mas isso se mostrou mentira, e Alberto foi obrigado a fugir de novo — desta vez com uma família jovem, usando o passaporte de Bruno para escapar para a Holanda. Eles se estabeleceram nos apartamentos Gliphoeve, em Bijlmermeer, Amsterdã, uma comunidade vibrante de imigrantes. Esse caldeirão de culturas inspirou Alberto musicalmente. Ele montou um estúdio no apartamento, por onde músicos do Suriname, Angola, das Antilhas, do Brasil, de Moçambique e de Portugal iam e vinham, tocando juntos, ensaiando, gravando e formando bandas, incluindo Albatros, Comoção e Mati Africa, se apresentando internacionalmente e em casas emblemáticas de Amsterdã como De Melkweg e Paradiso. Ser imigrante era difícil. Alberto ficou sem nacionalidade por anos, vagando entre países. Algumas canções expressavam sua frustração com o regime português; outras eram brincalhonas ou simplesmente bilhetes de amor para a esposa e os filhos. Ele faleceu na Holanda em 2021, deixando Some Shit aberto a interpretações. Mas, quando você imagina a Europa nos anos 1970 — a política, a turbulência e a necessidade dele de aproximar pessoas entre culturas — dá para ouvir um artista moldado pelo contraste, que derramou suas vivências, sentimentos e amor na música.